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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O que é o Evangelho – Charles Spurgeon

Há muitas respostas para esta pergunta e, possivelmente, aqui mesmo em minha audiência (apesar de crer que somos bem uniformes em nossas convicções doutrinárias), pode-se falar em duas ou três respostas rapidamente disponíveis a pergunta: O que é pregar o Evangelho? Procurarei, por tanto, responder de acordo com meu próprio entendimento, com a ajuda de Deus; e se acontecer de não ser uma resposta correta, vocês têm completa liberdade de encontrar uma resposta melhor conforme seu próprio discernimento.

Pregar o Evangelho é expor cada doutrina presente na Palavra de Deus, e dar a cada verdade sua própria importância. Os homens podem pregar uma parte do Evangelho; podem pregar unicamente uma doutrina do Evangelho; e eu não diria que um homem não prega o Evangelho caso se atenha apenas a doutrina da Justificação pela Fé – “porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Eu o consideraria um ministro do Evangelho, porém é alguém que não anuncia todo o Evangelho. Não se pode afirmar que um homem prega todo o Evangelho de Deus se ele toma partido, consciente e intencionalmente, de uma só verdade de nosso bendito Deus. Este comentário deveria ser muito penetrante e explodir na consciência de muitas pessoas, que, quase como uma questão de princípio, não compartilham certas verdades com as pessoas, devido o fato de elas temerem tais verdades. Numa conversa recente, há cerca de duas semanas, um eminente cristão me dizia: “senhor, sabemos que não devemos pregar a doutrina da eleição, já que ela não tem a capacidade de converter pecadores”. 

Eu lhe respondi: “Mas, quem se atreve a identificar falhas na verdade de Deus? Você concorda comigo que a eleição é uma verdade e, no entanto, afirma que não se deve pregá-la! Eu não me atreveria a fazer afirmação semelhante! Considero ser uma arrogância suprema atrever-se a dizer que uma doutrina não deve ser pregada, quando Deus em sua suprema sabedoria desejou revelá-la aos homens. Além do que, me pergunto: ‘O objetivo de todo o Evangelho é converter aos homens?’. Existem certas verdades que Deus entregou para a conversão dos pecadores; porém, acaso não existem outras verdades destinadas a trazer consolo aos santos? Não deveriam estas verdades ser objetos do ministério da pregação, igualmente as demais? Devo tomar partido de algumas e descartar as outras? Não! Deus disse: ‘Consolai; consolai meu povo!’; se a eleição consola o povo de Deus, então devo pregá-la”.

De qualquer forma, não estou convencido de que a doutrina da eleição não seja capaz de converter pecadores. O grande Jonathan Edwards nos diz que, no momento culminante de um de seus avivamentos, estava pregando sobre a soberania de Deus tanto na salvação, como na condenação do homem, e mostrava que Deus era infinitamente justo se enviava os homens ao Inferno; que Ele era infinitamente misericordioso se salvava alguém; e que tudo provinha de sua livre e soberana graça. E ele afirma: “Não tenho encontrado nenhuma outra doutrina que promova tanta reflexão: nada encontra um melhor caminho ao coração do homem que a pregação desta verdade!”. O mesmo pode ser dito de outras doutrinas. Existem certas verdades na Palavra de Deus que estão condenadas ao silêncio, pois segundo o entender de alguns, elas não serviriam para este ou aquele fim. Todavia, cabe a nós julgar a verdade de Deus? Devemos colocar Suas Palavras na balança e dizer: “Isto é bom, isto é mal”? Devemos pegar a Bíblia, amputá-la e dizer: “Isto é palha, e isto é grão!”? Devemos nos desfazer de algumas verdades alegando “não me atrevo a pregá-las!”? Não! Deus não deseja isso! Qualquer coisa que esteja escrita na Palavra de Deus foi registrada para a nossa instrução: e toda ela é útil, seja para repreensão ou consolo, ou para nos instruir na justiça. Nenhuma verdade da Palavra de Deus deve ser ocultada, antes, cada porção dela deve ser pregada segundo seu sentido próprio.

Alguns homens limitam-se, de forma intencional, a quatro ou cinco tópicos que pregam de maneira contínua. Aventurando-se a entrar em suas igrejas, naturalmente vocês irão esperar  ouvi-los pregar sobre este versículo: “Nem da vontade da carne, mas de Deus”; ou, quem sabe, sobre este outro: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai”. Vocês estão conscientes de que ao entrar nessas igrejas irão ouvir a respeito da eleição e de como todas as coisas procedem do Pai. Estes indivíduos estão equivocados, tanto quanto os outros, por darem demasiada importância a uma verdade e minimizando as demais. Toda a Bíblia e nada mais que a Bíblia, é a norma do verdadeiro cristão.

Desgraçadamente, muitos formam um círculo de ferro ao redor de suas doutrinas, e qualquer que ouse dar um passo além deste pequeno círculo, não será considerado como portador da sã doutrina. Neste caso, que Deus abençoe os hereges! Senhor; nos envie mais hereges! Alguns convertem a teologia em uma espécie de cilindro que contém cinco doutrinas que giram de modo indefinido; nunca se aventuram a outros temas. Toda a verdade deve ser anunciada. E se Deus tem escrito em Sua Palavra: “Quem não crer já está condenado”; isso deve ser pregado tanto quanto: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.

Cada um de nós, a quem foi confiado o ministério, deve procurar anunciar toda a verdade. Sei que pode ser impossível pregar toda a verdade. A alta colina da verdade tem nuvens que encobrem seu topo. Nenhum olho humano pode ver o cume; tampouco algum pé humano o tem pisado alguma vez. Todavia, podemos tentar pintar a nuvem, já que não podemos pisar o topo. Se há nuvens por sobre a montanha da verdade, digamos: “Nuvem e mistério há a seu redor!”. Não neguemos tal fato; e não pensemos em reduzir a montanha de acordo com nossa própria estatura, apenas porque não podemos ver acima dela, ou porque não conseguimos alcançar seu topo. Aquele que deseja pregar o Evangelho deve pregar todo o Evangelho. Aquele que deseja ser considerado um ministro fiel, não deve deixar de lado nenhum aspecto das Boas Novas.

Extraído de: Olhar Reformado

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Para os Preguiçosos – C.H. Spurgeon

Meu conselho para os jovens é: "Saiam do caminho da preguiça, pois vocês podem pegar essa doença e nunca se livrar dela". Tenho sempre medo de que eles aprendam o caminho da preguiça e fico muito atento para perceber qualquer coisa desse tipo logo no início; pois como vocês sabem, é melhor matar o leão enquanto é filhote.

Gente  preguiçosa  não  sabe  o  que  é  lazer;  está  sempre  com  pressa e bagunçado,  pois como negligencia o trabalho no momento certo sempre tem muito o que fazer. De qualquer modo, não é fácil que os preguiçosos passem impunes por todos seus esquemas porque, no fim, sempre carregam a maior parte das penas. Elas não consertam o telhado, portanto têm de construir uma nova cabana; não põem o cavalo na carroça, por isso, terão elas mesmas de puxar a carroça. Se fossem espertas, executariam bem seu trabalho, a fim de não fazê-lo duas vezes, e se esforçariam trabalhar bem enquanto estão na lida para tirar a pendência da frente. Meu conselho é: se você não gosta de trabalho pesado, comece a trabalhar com garra, execute-o e goze seu tempo de descanso.

Eu gostaria que todas as pessoas religiosas pensassem a respeito desse assunto, pois alguns professores são surpreendentemente preguiçosos e, com isso, fornecem um material lamentável para a língua dos ímpios.

Penso que um lavrador religioso deve ser o melhor homem no campo, e não deve permitir que nenhum grupo o derrote. Quando estamos trabalhando, temos o dever de estar com a atenção no trabalho e não podemos parar para conversar, mesmo que a conversa seja sobre religião. Do contrário, não apenas roubamos de nosso empregador o nosso próprio tempo, como também o tempo dos cavalos. Eu costumo ouvir pessoas dizerem: "Nunca pare o arado para matar um rato", da mesma forma, é uma tolice parar para bater papo; além disso, um homem que desperdiça o tempo, quando o patrão está ausente é um bajulador, o que considero o oposto de ser cristão. Se alguns dos membros de nossa congregação fossem um pouco mais ágeis com os braços e as pernas quando trabalham e um pouco menos ativos com as línguas, falariam mais sobre religião do que falam agora. O povo diz que o maior enganador é o mais devoto, eu fico constrangido em afirmar que um dos maiores preguiçosos que conheço é um homem que se declara abertamente um falante. Seu jardim está tão coberto de ervas daninhas que por pouco não tomo a iniciativa de capiná-lo para ele. Se ele fosse mais jovem, conversaria com ele a respeito disso para livrar nosso grupo da vergonha que ele acarreta sobre nós e a fim de orientá-lo melhor, mas quem pode ser professor de uma criança de sessenta anos? Ele é um espinho constante para o nosso amável pastor, que anda muito aflito com isso e diz muitas vezes que tem vontade de ir para outro lugar porque não consegue lidar com essa conduta; mas eu digo-lhe que em qualquer lugar que viva sempre encontrará um arbusto espinhoso perto de sua porta, e será uma benção se não encontrar dois.

Contudo, eu gostaria que todos os cristãos fossem diligentes, pois a religião jamais teve por desígnio que nos tornássemos preguiçosos. Jesus foi um grande trabalhador e seus discípulos não tinham medo de trabalhar duro.

Da mesma forma, tem muito disso no servir ao Senhor com o coração frio e a alma preguiçosa, além de fazer a religião definhar. Os homens cavalgam quando caçam para ganhar algo, mas são lerdos quando estão a caminho do céu. Os pregadores continuam a vacilar e a falar de forma monótona, em uma verdadeira lengalenga, e o povo começa a bocejar, cruzar os braços e a dizer que, por isso, Deus está recusando a bênção. Todo preguiçoso maldiz sua sorte quando se vê incluído grupo dos esfarrapados; e algumas igrejas aprenderam esse mesmo artifício pernicioso. Eu acredito que quando Paulo planta, e Apolo rega, Deus faz crescer, e não tenho paciência com os que põem a culpa em Deus, quando eles são os culpados. Agora esgotei todos os meus recursos. Receio ter falado em vão, mas fiz o melhor que pude, nem um rei poderia fazer mais. Uma formiga nunca produzirá mel se não trabalhar com o coração, e eu jamais exporei meus pensamentos de forma tão bela como alguns escrevem um livro de sucesso; mas a verdade é a verdade mesmo vestida de chita e, assim, chego ao fim de toda essa história.

Adaptado do livro: Sabedoria Bíblica, de C.H. Spurgeon.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O evangelho da Ilusão - C. H. Spurgeon

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As Coisas Pequenas - C. H. Spurgeon

Somos incapazes de realizar o mais humilde ato da vida cristã, se não recebemos de Deus o vigor do Espírito Santo. Com certeza, meus irmãos, é nestas COISAS PEQUENAS que geralmente percebemos, acima de tudo, a nossa fraqueza. Pedro foi capaz de andar sobre a água, mas não pôde suportar a acusação de uma criada. Jó suportou a perda de todas as coisas, porém as palavras censuradoras de seus falsos amigos (embora fossem apenas palavras) fizeram-no falar mais amargamente do que todas as outras aflições juntas. Jonas disse que tinha razão em ficar irado, até à morte, A RESPEITO DE UMA PLANTA.

Você não tem ouvido, com certa freqüência, que homens poderosos, sobreviventes de muitas batalhas, foram mortos por um acidente trivial? John Newton disse: “A graça de Deus é tão necessária para criar no crente a atitude correta diante da quebra de uma louça valiosa como diante da morte de um parente querido”. Estes pequenos vazamentos precisam dos mais cuidadosos tampões. Nas coisas pequenas, bem como nas coisas grandes, o justo tem de viver pela fé!

Crente, você não é suficiente para nada! Sem a graça de Deus, não pode fazer coisa alguma. Nossa força é fraqueza — fraqueza até para as coisas pequenas; fraqueza para as situações fáceis, bem como para as complexas; fraqueza nas gotas de tristeza, como também nos oceanos de aflição. Aprenda bem o que nosso Senhor disse aos seus discípulos: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15.5).

C. H. Spurgeon
Fonte: http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=198

terça-feira, 12 de abril de 2011

Conversões Superficiais, Religião Superficial - C.H. Spurgeon

Embora eu me regozije com conversões súbitas, eu tenho sérias suspeitas quanto a essas pessoas repentinamente felizes que nunca parecem ter se entristecido com o próprio pecado. Receio que esses que vêm tão facilmente à sua religião que freqüentemente a perdem completamente com a mesma facilidade. Saulo de Tarso foi convertido subitamente, mas nenhum homem já passou por maior horror de escuridão do que ele, antes que Ananias viesse a ele com palavras de conforto.

Eu gosto do arado profundo. A raspagem superficial do solo é trabalho pobre. O corte profundo da terra sob a superfície é grandemente necessário. Afinal de contas, os cristãos mais duradouros parecem ser aqueles que viram que o mal interior que neles há é profundo e repugnante, e depois de algum tempo foram levados a ver a glória da mão curativa do Senhor Jesus conforme Ele a estende no Evangelho.

Receio que em muito da religião moderna há uma carência de profundidade em todos os pontos. Eles não tremem profundamente nem se regozijam grandemente. Eles não se desesperam muito, nem acreditam muito. Oh, cuidado com um verniz piedoso! Proteja-se da religião que consiste em colocar uma fina camada de piedade sobre uma pesada massa de carnalidade. Nós precisamos de uma obra contínua no interior. A graça que alcança o centro e afeta o espírito mais interior é a única graça que vale a pena ter.

Para pôr tudo em uma palavra, uma ausência do Espírito Santo é a grande causa da instabilidade religiosa. Cuidado para não confundir excitação com o Espírito Santo ou as suas próprias resoluções com os profundos mecanismos do Espírito de Deus na alma. Tudo aquilo que a natureza pinta, Deus queimará com ferro quente. Qualquer coisa que a natureza põe em funcionamento, Ele fará parar e jogará fora com os trapos. Você precisa nascer de cima, você precisa ter uma nova natureza forjada em você pelo dedo do próprio Deus, já que de todos os seus santos está escrito, "Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus."

Oh, mas, em todos os lugares eu temo que haja uma ausência do Espírito Santo! Há muita coisa vindo de uma moralidade espalhafatosa, superficial, muitos clamores de "Paz, Paz" onde não há nenhuma paz; e muito pouca ansiedade profunda advinda de um exame do coração para ser completamente purificado do pecado. Verdades bem conhecidas e facilmente lembradas são cridas sem serem acompanhadas da devida uma impressão do peso delas; esperanças sem consistência e confianças infundadas são formadas e é isso que faz com que os enganadores sejam tão abundantes e os espetáculos carnais tão comuns.

Por C.H. Spurgeon

Publicado por Phil Johnson no site Pyromaniacs.
Tradução: Juliano Heyse
Extraído de Bomcaminho.com

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paciência - C.H. Spurgeon

Paciência
Por C.H. Spurgeon

          A paciência é melhor do que a sabedoria; trinta gramas de paciência valem mais que meio quilo de massa cerebral. Todos os homens louvam a paciência, mas poucos a louvam o suficiente para praticá-la. É um remédio bom para todas as doenças, como afirma toda senhora de idade, mas as ervas que produzem esse remédio não crescem em todos os jardins. Quando alguém, de carne e osso como nós, fica cheio de dores, é muito natural que murmure, como é natural um cavalo abanar a cabeça quando as moscas o incomodam, ou uma roda ranger quando perde um aro. Mas a natureza não deveria ser a regra para os cristãos ou, então, para que serve sua religião? Se um soldado não lutar melhor que um lavrador, tire seu casaco vermelho. Esperamos mais fruta de uma macieira que de um espinheiro e temos o direito de pensar assim. Os discípulos de um Salvador paciente também devem ser pacientes. O velho ditado aconselha: "Sorria e agüente", mas cantar e carregar é muito melhor. Afinal, temos poucas marcas de chicote, considerando a péssima qualidade de gado que somos; e sempre achamos que nosso sofrimento vem cedo demais. A dor passada é prazer, além de trazer experiência. Nós não deveríamos ter medo de ir ao Egito quando sabemos que podemos voltar de lá com jóias, prata e ouro.

          Pessoas impacientes lavam suas misérias e sulcam seu bem-estar; as tristezas são visitantes que chegam sem ser convidados, mas as mentes queixosas causam um vagão de problemas em sua casa. Muitas pessoas nascem chorando, vivem se queixando e morrem frustradas; elas mastigam a pílula amarga sem sequer saber não seria tão amarga se tivessem inteligência para engoli-la inteira, com um copo de paciência e água. Pensam que a carga dos outros homens é leve, e a delas pesa como chumbo. Dificilmente elas se cansam da própria opinião. Os dedos dos pés de ninguém são pisados pelo touro negro com tanta freqüência como os delas; a neve que cai em volta de sua porta é mais espessa, e o granizo faz um barulho mais forte em suas janelas. Contudo, se a verdade fosse conhecida, ficaria claro que é a fantasia delas, e não a má sorte, que faz parecer que as coisas vão mal, a ladainha poderia ser posta de lado se não pensassem apenas nisso. Se pomos um raminho da erva chamada contentamento em uma sopa bem rala ela terá um sabor tão bom como a torta do prefeito. João Lavrador cultiva a erva em seu jardim, mas o último inverno muito rigoroso danificou-a terrivelmente, e ele não conseguiu uma mudinha para dar aos seus vizinhos; eles deviam seguir Mateus 25.9 e procurar os que vendem e compram. A graça é um solo bom para o cultivo, mas precisa ser regada com a água da fonte da misericórdia. Ser pobre nem sempre é agradável, mas coisas piores que isso acontecem no mar. Sapatos pequenos são ótimos para apertar, mas não se o pé for pequeno; se temos poucos recursos, é ótimo que tenhamos desejos modestos. A pobreza não é vergonha, mas ficar descontente com ela é. Em algumas coisas, os pobres são melhores que os ricos, se um homem pobre tiver fome ele procura um alimento para matar a fome, já o rico que tem demais come além do que precisa para se alimentar. A mesa do pobre logo fica arrumada, e seu trabalho poupa-o de comprar molho. Os melhores médicos são o dr. Dieta, o dr. Sossego e o dr. Feliz, e muitos lavradores religiosos têm todos esses senhores para cuidar deles. A fartura causa gulodice, mas a fome não vê imperfeição no cozinheiro. O trabalho pesado proporciona saúde, e trinta gramas de saúde valem mais do que um saco de diamantes. Há mais doçura em uma colher cheia de açúcar que em um litro de vinagre. Não é a quantidade de nossos alimentos, mas a graça de Deus no que temos que nos faz verdadeiramente ricos. Os restos de uma maçã comum são melhores que uma maçã silvestre inteira; um jantar de verduras em paz é melhor que um com a carne de um boi confinado acompanhada de discussão, ter pouco com temor a Deus é melhor do que ter um grande tesouro acompanhado de problemas. Uma pequena quantidade de lenha aquece meu pequeno forno; por que, então, devo me lastimar se toda a lenha não for minha?

          Quando as dificuldades aparecem, não adianta insultar Deus com pensamentos injustos sobre a providência; isso é o mesmo que dar murro em ponta de faca e se machucar. As árvores se curvam com o vento, e nós também devemos nos curvar. Cada vez que a ovelha bali, perde um bocado, e cada vez que nos queixamos, perdemos uma benção. Queixar-se é um mau negócio e não traz lucro, mas a paciência tem mãos de ouro, nossos males logo terminarão. Depois da chuva surge um brilho claro; corvos negros têm asas; cada inverno se transforma em primavera; cada noite rompe em manhã. O vento não sopra sempre tão forte. No fim, ele se aquita.

          Quando uma porta se fecha, Deus abre outra, se as ervilhas não crescem bem; os feijões crescem, se uma galinha abandona seus ovos, outra choca toda a ninhada. Há um lado luminoso em todas as coisas, e um Deus bom em todos os lugares. Em um lugar ou outro, no meio da pior onda de problemas sempre há terra firme onde pôr nosso contentamento, e se não houver temos de aprender a nadar.

          Amigo, como diziam os antigos, ponha paciência e água no mingau de aveia antes de apanhar os miseráveis e transmitir aos outros a doença pecaminosa de encontrar imperfeições em Deus. O melhor remédio para a aflição é submeter-se à providência. O que não pode ser curado, deve ser suportado. Se não pudermos ter bacon, louvemos a Deus, pois ainda temos alguns repolhos na horta. "O dever" é uma noz dura de quebrar, mas tem uma semente doce. "Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam".O que quer que caia do céu, mais cedo ou mais tarde, faz bem para a terra; o que quer venha de Deus tem valor, mesmo que seja um açoite. Por nossa natureza, não podemos gostar de dificuldades da mesma forma que um rato não cai de amores por um gato, contudo Paulo, pela graça, chegou à glória também em tribulações. Perdas e cruzes são pesadas de suportar, mas é maravilhoso como o fardo fica leve quando nosso coração está do lado direito de Deus. Temos de ir para a glória pelo caminho da Cruz das Lamentações; e como nunca nos foi prometido que iríamos para o céu em uma cama de plumas não podemos nos desapontar ao ver que a estrada é difícil, como nossos pais também acharam antes de nós. Tudo está bem quando termina bem, por isso, aremos o solo mais árido com os olhos na colheita e aprendamos a cantar durante nosso trabalho, enquanto os outros murmuram.


Extraído do livro: Sabedoria Bíblica, de C.H. Spurgeon.


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